Mapas interactivos de vegetação, uso do solo e mudanças urbanas no Porto

Acessibilidade a Espaços Verdes Públicos no Porto: Uma Análise Espacial pelo Método 2SFCA

Acessibilidade a Espaços Verdes Públicos no Porto: Uma Análise Espacial pelo Método 2SFCA

Acessibilidade a Espaços Verdes Públicos no Porto: Uma Análise Espacial pelo Método Two-Step Floating Catchment Area


1. Introdução

O Porto dispõe de 19,3 m² de espaço verde público por habitante — acima do limiar de 9 m²/hab frequentemente atribuído à OMS. Porém, esta métrica agregada esconde uma realidade desigual: quem vive junto ao Parque da Cidade tem uma dotação generosa; quem habita na Sé, em Campanhã ou no interior de Paranhos pode não ter nenhum espaço verde acessível a pé.

Este trabalho aplica o método Two-Step Floating Catchment Area (2SFCA) ao município do Porto, cruzando um inventário de 78 parques e jardins de acesso público gratuito, a classificação de uso do solo por Sentinel-2, e a grelha de população GHS-POP. O resultado é um mapa da acessibilidade efectiva a verde público em m² por habitante num raio pedonal de 500 m.


2. Enquadramento

2.1. Verde público no Porto: a ilusão do agregado

A tensão entre indicadores agregados favoráveis e realidades locais deficitárias é um tema recorrente na literatura sobre o Porto. Quental (2010), na sua tese sobre modelação de estrutura urbana sustentável na Área Metropolitana do Porto, já identificava a distribuição espacial assimétrica da infraestrutura verde como um dos principais desafios da sustentabilidade urbana na região. A análise GIS de Quental para as 130 freguesias da AMP revelou que a distância média ponderada pela população ao espaço verde mais próximo era de 1 110 m em 2006 (contra 1 403 m em 1991) — uma melhoria ao longo do tempo, mas ainda muito acima do limiar de 300 m recomendado pela OMS — e que “algumas áreas densas de Vila Nova de Gaia, Gondomar e Matosinhos estão bastante mal equipadas” em termos de verde acessível (Quental, 2010, p. 262). Quental & Macedo (2006), no diagnóstico de indicadores de desenvolvimento sustentável para o Grande Porto, quantificaram esta assimetria e alertaram para a insuficiência das métricas per capita como instrumento de planeamento.

Graça et al. (2018) mapearam 95 espaços verdes no Porto (~424 ha). A presente análise identifica 448 ha de verde público classificado pelo PDM 2021 — valor coerente. Contudo, desta área, apenas ~252 ha correspondem a parques e jardins de acesso efectivamente livre. Hoffimann et al. (2017), usando análise de rede viária e o Public Open Space Tool, demonstraram que o acesso a verde no Porto varia com o estatuto socioeconómico: 90% da população nos bairros menos desfavorecidos vive a ≤800 m de um espaço verde, contra 75,8% nos mais desfavorecidos. Saraiva et al. (2025) confirmaram estas desigualdades com análise de correspondência múltipla aplicada a 89 espaços verdes públicos.

A escassez de verde acessível no Porto resulta de uma transformação urbana profunda iniciada a meados do século XX. Guilherme (2024) mostrou que a superfície artificializada do município duplicou entre 1947 e 2019 — de 31% para 62% do território — enquanto a vegetação herbácea, que correspondia a ~40% da área total em 1947, colapsou para ~10% em 2019. Guilherme et al. (2024), analisando as trajectórias de uso do solo para o mesmo período, estimaram que mais de um terço do município (35,1%) perdeu completamente a cobertura vegetal, e que apenas 25,3% manteve vegetação contínua desde 1947. O resultado mais saliente para o planeamento: os habitats arborizados sobreviveram principalmente nos parques e jardins públicos, enquanto os habitats herbáceos — as hortas, pastagens e terrenos expectantes que outrora cobriam ~40% da cidade — estão hoje “extremely susceptible to new urban development” (Guilherme et al., 2024) e reduzidos a 5,2% do município.

2.2. Equidade e vulnerabilidade térmica

Wolch et al. (2014) sintetizaram a evidência de que populações de menor rendimento tendem a residir em bairros com menor acesso a verde — o green gentrification paradox. No Porto, Lopes et al. (2025) demonstraram que 32,6% do território se encontra em zonas de elevado risco térmico, precisamente nas áreas de maior densidade e menor cobertura vegetal. Os modelos de Quental (2010) para a AMP — que classificaram a estrutura territorial de 130 freguesias em domínios de sustentabilidade usando redes neuronais, equações estruturais e regressão múltipla — já mostravam que a forma urbana compacta favorece padrões de mobilidade e consumo mais sustentáveis, mas que o rendimento e a dimensão das famílias são os factores que mais influenciam os padrões ambientais à escala da freguesia. Este resultado reforça a necessidade de intervir directamente na infraestrutura verde das zonas densas, onde a forma urbana por si só não compensa o défice.

2.3. O método 2SFCA

As métricas tradicionais — área per capita por freguesia, buffers de proximidade, NDVI médio — apresentam limitações conhecidas: diluem a informação em médias administrativas, não distinguem dimensão dos espaços, ou confundem verde público com privado.

O método Two-Step Floating Catchment Area (Luo & Wang, 2003) supera estas limitações ao considerar simultaneamente a oferta (área verde) e a procura (população) num raio definido. Para cada espaço verde, calcula-se o rácio área/população servida; para cada ponto de população, somam-se os rácios dos espaços acessíveis. O resultado captura o efeito de saturação: um parque pequeno rodeado por muita gente vale menos, por pessoa, do que um parque grande com pouca população. Dai (2011) aplicou-o a Atlanta, Rigolon (2016) evidenciou o papel da qualidade dos parques, e Luo & Qi (2009) propuseram a variante com decaimento gaussiano — embora para raios pedonais curtos (≤500 m) a diferença prática seja marginal (Langford et al., 2008).


3. Dados e Metodologia

3.1. Fontes de dados

Dado Fonte Resolução Período
Parques e jardins públicos Inventário próprio (CMP + OSM + levantamento) vectorial (78 polígonos) 2026
Classificação verde Sentinel-2 (ESA) 10 m 2024–2025
Verde não usufruível PDM Porto 2021 (CMP) vectorial (132 polígonos) 2021
População GHS-POP (JRC/EC) 100 m 2020
Limites municipais CAOP 2025 (DGT) vectorial 2025

3.2. Inventário de parques

Compilou-se uma lista de 78 parques e jardins de acesso público e gratuito, partindo do directório oficial da CMP (20 espaços) e complementando com espaços omitidos mas de acesso comprovadamente livre: praças, largos, jardins de bairro, parques infantis e alamedas identificados via OpenStreetMap, PDM e levantamento de campo. Contornos obtidos preferencialmente via polígonos PDM (categoria “fruição colectiva”) e OpenStreetMap (Overpass API / API v0.6). Área total: ~252 hectares.

A classificação Sentinel-2 seguiu a metodologia multi-sazonal descrita em Quental (2026), com 90,4% de concordância com o ESA WorldCover 2021 para a classe arbórea. Esta classificação é utilizada para a camada visual do mapa, mas o cálculo de acessibilidade usa a área total dos polígonos.

Os polígonos do PDM que não correspondem a nenhum dos 77 parques (jardins de escolas, hortas com acesso restrito, separadores viários) são apresentados como “Verde pago ou não usufruível”.

3.3. Cálculo do 2SFCA

Implementação em versão raster contínua no Google Earth Engine:

  1. Máscara binária dos 77 parques × área do pixel (57 m²)
  2. Soma focal do verde num kernel circular de raio 500 m (76×58 pixels)
  3. Soma focal da população (GHS-POP, corrigida para reamostragem: factor ~1/175)
  4. Filtro: exclui pixels com <50 hab no raio de 500 m
  5. Acessibilidade = verde_500m / pop_500m (m²/hab)

O raio de 500 m é um compromisso entre o limiar europeu de 300 m (OMS, 2016) e a topografia acidentada do Porto.


4. Resultados

4.1. Verde público: inventário

O inventário totaliza 78 parques e jardins (~252 ha), inferior aos 448 ha do PDM por excluir espaços sem usufruto livre. Os 252 ha correspondem a ~10,4 m²/hab — ligeiramente acima do limiar de 9 m²/hab.

Tabela: 78 parques e jardins inventariados (clicar para expandir) | Parque / Jardim | Área (m²) | |---|---:| | Parque da Cidade | 714 300 | | Parque Oriental | 185 500 | | Parque de Serralves | 181 400 | | Jardim do Palácio de Cristal | 144 880 | | Parque e Mata da Pasteleira | 133 100 | | Parque do Covelo | 75 700 | | Parque de Requesende | 73 300 | | Viveiro Municipal | 66 500 | | Parque Central da Asprela | 64 300 | | Parque da Alameda de Cartes | 64 200 | | Parque de São Roque | 52 200 | | Quinta de Bonjóia | 47 800 | | Jardim Botânico do Porto | 43 080 | | Jardim do Passeio Alegre | 38 700 | | Jardim do Palácio do Freixo | 34 100 | | Rotunda da Boavista | 30 800 | | Parque das Águas | 27 600 | | Jardins da Avenida de Montevideu | 27 300 | | Horta do Parque José Avides Moreira | 25 900 | | Jardim do Calém e das Sobreiras | 25 100 | | Parque da Quinta de Lamas | 25 100 | | Jardim de Arca d'Água | 22 700 | | Ribeira da Asprela | 20 100 | | Jardim da Corujeira | 19 800 | | Jardins do Palácio dos Carrancas | 18 000 | | Jardim da Praça da República | 17 900 | | Jardim da Cordoaria | 16 500 | | Jardim da Praça de Francisco Sá Carneiro | 15 000 | | Jardim do Homem do Leme | 14 800 | | Jardim José Roquette | 14 170 | | Jardim de Teodoro de Sousa | 14 000 | | Parque da Fundação Eng. António de Almeida | 13 700 | | Jardim Paulo Vallada | 13 600 | | Parque e Passeio das Virtudes | 12 400 | | Jardim de Sarah Afonso | 10 400 | | Jardim da Praça Rainha Dona Amélia | 10 400 | | Jardim do Carregal (Carrilho Videira) | 8 800 | | Jardim Machado de Assis | 8 700 | | Parque Urbano Dr. Mário Soares | 8 200 | | Rua de Manuel Bandeira | 7 800 | | Rua Diogo Botelho | 7 800 | | Santa Luzia | 7 227 | | Largo do Priorado | 7 200 | | Jardim de Guedes de Oliveira | 7 000 | | Jardim do Marquês | 6 800 | | Praceta da Cidade da Praia | 6 800 | | Rua de Diogo Botelho | 6 100 | | Largo de Soares dos Reis | 5 900 | | Parque Infantil do Amial | 5 800 | | Jardim de São Lázaro | 5 700 | | Alameda das Fontainhas | 5 700 | | Jardim Palmira Milheiro | 5 400 | | Rua dos Choupos | 5 100 | | Praça dos Álamos | 5 100 | | Parque dos Sobreiros | 4 900 | | Parque Infantil da Areosa | 4 900 | | Jardim da Praça de Liège | 4 800 | | Jardim Senhora do Porto | 4 800 | | Jardim da Av. dos Combatentes / R. da Alegria | 4 700 | | Rua de Alfredo Keil | 4 700 | | Jardim Arnaldo Gama | 4 400 | | Jardim da Avenida Brasil | 4 400 | | Parque Infantil Bessa Leite | 4 100 | | Jardim Ezequiel de Campos | 3 900 | | Parque Infantil da Prelada | 3 800 | | Jardim do Campo 24 de Agosto | 3 700 | | Jardins da Praia do Molhe | 3 700 | | Escadas Carolina Michaelis | 3 400 | | Praça da Ribeira Grande | 3 400 | | Largo Cap. Pinheiro Torres de Meireles | 3 100 | | Jardim de Fradelos | 3 000 | | Jardim do Largo de Dom João III | 2 800 | | Jardim de Belém | 1 900 | | Jardins da Casa Allen | 1 500 | | Largo do Dr. Tito Fontes | 1 500 | | Jardim do Largo da Paz | 1 200 | | Parque da Fonte do Outeiro | 900 | | Praça da Galiza | 800 | | **Total** | **2 515 757** |

4.2. Acessibilidade 2SFCA: a desigualdade revelada

Classe de acessibilidade População %
Défice crítico (0–3 m²/hab) 119 799 49,4%
Insuficiente (3–9 m²/hab) 67 268 27,7%
Adequado (>9 m²/hab) 55 358 22,8%

77,2% da população do Porto — ~187 mil pessoas — vive com acessibilidade inferior a 9 m²/hab num raio de 500 m. Quase metade (49,4%) está em défice crítico (<3 m²/hab). Apenas 22,8% tem acesso adequado.

4.3. Padrão geográfico

4.4. Proximidade 300m: o critério de Konijnendijk

A regra 3-30-300 (Konijnendijk, 2023) propõe que todos os residentes devem ter acesso a um espaço verde a ≤300 m de casa. Embora a formulação original refira parques de ≥1 ha, adoptamos aqui o limiar de ≥0,4 ha — por melhor reflectir a escala dos espaços verdes urbanos do Porto, onde muitos jardins e praças com funções recreativas relevantes ficam abaixo de 1 ha. Aplicando este critério aos 63 parques do inventário com área ≥0,4 ha:

Critério 300m (parques ≥0,4 ha) População %
Cumpre (≤300 m) 146 240 60,3%
Não cumpre (>300 m) 96 185 39,7%

39,7% da população do Porto — ~96 mil pessoas — não tem acesso a um parque de dimensão significativa a uma distância pedonal curta. Este resultado complementa o 2SFCA: parte da população na faixa “insuficiente” (3–9 m²/hab) pode estar a mais de 300 m do parque mais próximo — a acessibilidade 2SFCA reflecte parques distantes que “chegam” ao raio de 500 m mas não ao de 300 m.

4.5. Verde privado: o paradoxo de equidade

Os 1 678 ha de verde privado (quarteirões, logradouros, moradias) prestam serviços ecossistémicos locais — mas não são acessíveis ao público. As zonas com mais verde privado são as mesmas que já dispõem de mais verde público, enquanto as zonas densas carecem de ambos. Este verde privado é também o mais frágil: é maioritariamente de composição herbácea — o tipo de habitat que Guilherme et al. (2024) identificaram como o mais susceptível ao novo desenvolvimento urbano e que perdeu 32,8% da superfície municipal entre 1947 e 2019.


5. Cenário de Conversão: 46 Candidatos a Parque Público

5.1. Critérios de selecção

Os 46 espaços candidatos foram identificados a partir do cruzamento entre o mapa de acessibilidade 2SFCA e a classificação de uso do solo por Sentinel-2: terrenos com défice de proximidade e cobertura vegetal detectável (verde privado, expectante ou semi-abandonado), localizados preferencialmente em categorias do PDM que admitem reconversão (verde lúdico-produtivo, protecção e enquadramento, ou solo urbano de génese ilegal). A selecção prioritiza o eixo central e oriental do município — as zonas de maior défice documentadas na secção 4.3. Não foram incluídos terrenos edificados, espaços já vedados com uso definido, nem a frente atlântica e ribeirinha, servida pelos parques existentes.

5.2. Resultados da simulação

A conversão simultânea dos 46 candidatos (~142,6 ha) representaria um acréscimo de 57% à área de verde público actualmente usufruível (~252,5 ha → ~395 ha), elevando a dotação per capita de ~10,4 para ~16,3 m²/hab.

Proximidade 300m (critério Konijnendijk)

  Actual Simulado Ganho
Cumpre ≤300 m de parque ≥0,4 ha 146 240 hab (60,3%) 204 319 hab (84,3%) +58 079 hab (+24,0 p.p.)
Não cumpre 96 185 hab (39,7%) 38 106 hab (15,7%) −58 079 hab

A conversão reduziria o défice de proximidade de 39,7% para 15,7% da população — ~58 000 pessoas passariam a ter um parque ≥0,4 ha a ≤300 m de casa.

Acessibilidade 2SFCA (raio 500m)

Classe de acessibilidade Actual Simulado Variação
Défice crítico (0–3 m²/hab) 119 799 hab (49,4%) 44 121 hab (18,2%) −31,2 p.p.
Insuficiente (3–9 m²/hab) 67 268 hab (27,7%) 98 909 hab (40,8%) +13,1 p.p.
Adequado (≥9 m²/hab) 55 358 hab (22,8%) 99 394 hab (41,0%) +18,2 p.p.

A população em défice crítico reduziria de 49,4% para 18,2% (−31,2 p.p.), correspondente a ~75 700 pessoas que sairiam da classe mais crítica. A população com acessibilidade adequada quase duplicaria, de 22,8% para 41,0%.

5.3. Limites da simulação

A simulação assume conversão simultânea e integral de todos os candidatos — cenário improvável num horizonte realista de planeamento. Todos os espaços são tratados como verde público equivalente aos parques existentes, sem considerar qualidade, arborização, equipamento ou resistências fundiárias. O efeito sobre o centro histórico permanece limitado pela escassez de terrenos disponíveis: os 15,7% que persistiriam fora do raio de 300 m — concentrados principalmente na Baixa e Sé — dificilmente serão servidos sem intervenções de maior envergadura (desafectação de espaços actualmente vedados, cobertura de infraestruturas, micro-jardins de bolso em praças existentes).

O mapa interactivo das propostas, com comparação A/B antes/depois e detalhe por espaço candidato, está disponível em Propostas de Conversão a Verde.


6. O Porto no Contexto Europeu e Internacional

O défice de acessibilidade a verde no Porto não é um caso isolado — mas a comparação com outras cidades exige cautela, porque os valores de m²/hab variam enormemente conforme a definição adoptada: verde público acessível, verde público total (incluindo parques periféricos), ou verde total (incluindo florestas urbanas). A tabela seguinte compara o Porto com Lisboa e oito cidades internacionais, distinguindo os valores “com tudo” dos valores “efectivos”.

6.1. Lisboa: o mesmo problema com números diferentes

Lisboa é o caso comparativo mais directo. A cidade reporta ~37 m²/hab de verde público — mas este valor inclui o Parque Florestal de Monsanto (~900 ha), que sozinho representa cerca de metade do verde total. Sem Monsanto, a dotação cai para ~7–10 m²/hab, comparável ao Porto sem o Parque da Cidade. Catarino et al. (2025), num estudo de 26 capitais europeias, calcularam para Lisboa um Urban Green Equity Index de 0,387 — abaixo da média europeia — com desigualdades intra-urbanas marcadas: bairros como o Parque das Nações dispõem de verde abundante, enquanto Marvila e Beato apresentam défices severos. O projecto GREEN SURGE (2015) já documentara esta fragmentação. O diagnóstico é estruturalmente o mesmo que no Porto: um ou dois grandes parques periféricos mascaram a escassez no tecido urbano denso.

6.2. Panorama internacional

Cidade Verde/hab Valor efectivo Desigualdade intra-urbana
Porto 19,3 m² (PDM total) 10,4 m² (usufruível) 77,8% da pop. abaixo de 9 m²/hab; centro histórico ≈0
Lisboa ~37 m² (c/ Monsanto) ~7–10 m² (s/ Monsanto) UGEI 0,387; Marvila/Beato vs. Parque das Nações
Barcelona ~17 m² (c/ Collserola) ~7 m² (s/ Collserola) Apenas 33% da pop. a <300 m de parque urbano
Paris ~10,6 m² (c/ Bois) ~8,6 m² (intra-muros) 42–55% abaixo de 10 m²/hab; plano bioclimático 2035
Copenhaga ~32 m² ~32 m² ≥80% a <300 m de verde; meta: todos a <15 min a pé
Amesterdão ~24 m² ~24 m² Standard NL: 60 m²/hab acessível num raio de 500 m
Berlim ~88 m² (c/ florestas) variável Standard: ≥0,5 ha a <500 m; 74% da pop. a <300 m
Viena 55–95 m² (c/ Wienerwald) <2 m² nos distritos centrais Josefstadt 0,8 m²; Neubau 1,2 m²; Margareten 1,5 m²
Londres ~32 m² (16 m² parques) <0,44 m² para 750 mil pessoas 47% da área é verde, mas distribuição muito desigual
Singapura ~66 m² variável 46% do território é verde; heterogeneidade por área de planeamento

Fontes: Russo & Cirella (2018); Kabisch & Haase (2014); Nghiem et al. (2021); Catarino et al. (2025); EEA (2022); dados municipais.

6.3. Três lições da comparação

1. O “efeito Monsanto” é universal. Porto, Lisboa, Barcelona, Paris e Viena partilham o mesmo padrão: um ou dois grandes parques periféricos (Parque da Cidade, Monsanto, Collserola, Bois de Boulogne/Vincennes, Wienerwald) que inflacionam os indicadores agregados enquanto os bairros densos do centro ficam com valores próximos de zero. As cidades do Sul da Europa são particularmente afectadas pela combinação de centros históricos compactos com malha verde residual. O Porto encaixa-se neste padrão mediterrânico de défice estrutural.

2. Ter muito verde não garante equidade. Viena ilustra isto de forma extrema: com 55–95 m²/hab no agregado, é uma das cidades mais verdes da Europa — mas os distritos centrais de Josefstadt e Neubau ficam abaixo de 1,5 m²/hab, valores comparáveis aos piores do centro do Porto. Londres, com 47% da sua área classificada como verde, ainda tem 750 mil pessoas com menos de 0,44 m²/hab (CPRE London). A lição é clara: a quantidade total de verde não substitui a acessibilidade local.

3. O standard de 9 m²/hab precisa de ser repensado. O limiar de 9 m²/hab, frequentemente atribuído à OMS, tem na realidade origem provável no Decreto Ministerial italiano de 1968 (Przewoźna et al., 2024). A OMS recomenda oficialmente que todos os residentes tenham acesso a ≥0,5 ha de verde a <300 m de casa (OMS, 2016) — um critério de proximidade, não de área per capita. A regra 3-30-300 de Konijnendijk (2023) vai mais longe: 3 árvores visíveis de cada casa, 30% de cobertura de copa por bairro, 300 m até ao verde mais próximo. Na AMP, Quental (2010) mediu uma distância média ponderada de 1 110 m ao espaço verde mais próximo — quase quatro vezes o limiar da OMS. Copenhaga e Amesterdão adoptaram standards ainda mais exigentes (15 min a pé e 60 m²/hab a 500 m, respectivamente), demonstrando que é possível estabelecer metas ambiciosas.


7. Discussão

Concordância com a literatura

A forte heterogeneidade revelada pelo 2SFCA confirma três décadas de alertas sobre a desigualdade verde no Porto: desde o diagnóstico de indicadores de sustentabilidade do Grande Porto (Quental & Macedo, 2006), passando pelas desigualdades socioeconómicas documentadas por Hoffimann et al. (2017), até à vulnerabilidade térmica de Lopes et al. (2025). As zonas de maior risco térmico coincidem com as de menor acessibilidade a verde — um reforço mútuo entre ausência de verde e calor urbano. Quental (2010) demonstrou que a distância ao espaço verde mais próximo na AMP diminuiu de 1 403 m (1991) para 1 110 m (2006), reflectindo investimentos em parques, mas que a variável green space distance não se revelou estatisticamente significativa na modelação da mobilidade — sugerindo que a mera proximidade a verde, sem massa crítica de área, pode não ser suficiente para alterar comportamentos. Esta observação sublinha a importância de avaliar a acessibilidade efectiva (área por habitante, como no 2SFCA) e não apenas a distância ao parque mais próximo.

Limitações

O raio de 500 m é euclidiano; a distância real pela rede viária é superior, especialmente nas encostas do Porto. Os dados de população (GHS-POP 2020) podem não reflectir alterações recentes do alojamento local. O método trata todos os m² de verde como equivalentes — a incorporação de qualidade (arvoredo, equipamento, como proposto por Rigolon, 2016) enriqueceria a análise. Podem existir pequenos espaços verdes de acesso livre não contemplados no inventário.

Implicações

A estratégia municipal deveria priorizar o eixo central e oriental — onde o défice ponderado pela população é mais severo. Intervenções possíveis: abertura de logradouros ao uso público, conversão de terrenos expectantes em jardins de bolso (pocket parks), arborização intensiva de praças. O contraste entre 1 678 ha de verde privado e ~252 ha de verde usufruível levanta a questão da permeabilização: incentivos à abertura parcial de logradouros, servidões de passagem, cedências verdes em operações urbanísticas — mecanismos que Quental (2010) já propunha como instrumento de reequilíbrio territorial no Porto.


8. Conclusões

77,2% da população do Porto vive com acessibilidade a verde público inferior a 9 m²/hab num raio de 500 m. 49,4% encontra-se em défice crítico (<3 m²/hab), concentrado no centro e leste — as zonas mais densas e termicamente vulneráveis. Apenas 22,8% tem acesso adequado. Aplicando o critério de proximidade de Konijnendijk (2023), 39,7% da população não tem um parque de ≥0,4 ha a ≤300 m de casa.

Dos 448 ha classificados como verde público pelo PDM, apenas ~252 ha são efectivamente usufruíveis. A métrica agregada per capita é insuficiente para avaliar a equidade — e o Porto não é caso único: Lisboa, Barcelona e Paris partilham o mesmo padrão de défice estrutural em núcleos densos.

A conversão dos 46 candidatos identificados (~142,6 ha) permitiria reduzir o défice de proximidade de 39,7% para 15,7% da população, e a população em défice crítico 2SFCA de 49,4% para 18,2% — mantendo ainda um núcleo central irredutível onde a escassez de terrenos disponíveis limita as soluções convencionais.


9. Nota Metodológica

Processamento em Python com Google Earth Engine, scipy, NumPy e Shapely. Código aberto:


10. Referências


Mapas interactivos

Acessibilidade a Verde Público — Porto — mapa com camadas de acessibilidade 2SFCA, parques e jardins (77 espaços com popups), verde pago/não usufruível e verde privado

Propostas de Conversão a Verde — 46 candidatos a parque público com comparação A/B antes/depois e detalhe por espaço candidato